Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
 Posted by Picasa

2 comentários:

Fernando disse...

O silêncio à volta dos teus passos é o grito mais alto que podes dar. A imagem que escolhes é prova de que o silêncio é uma forma de dizer muito. É como todas as portas: fecha e abre. Depende de quem está lá dentro, depende de quem está lá fora.

Cleopatra disse...

Depende de quem entra
Depende de quem deixamos entrar

Depende de quem bate....

depende de quem chama...

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