Há dias em que todos os sonhos soam a impossíveis e apetece desistir.



Quanto sentimento cabe e de quanto desligar da realidade se é capaz.
Um sentimento de frustração aflora na pele por não ser capaz de, em palavras, transmitir sentires, sabores e odores com mestria.
Valha-nos os homens das palavras... e nisso Vinicius foi mágico.
Uma vénia.
Saravá!



***

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai!eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens."



"Dois amantes felizes não têm fim nem morte, nascem e morrem tanta vez enquanto vivem, são eternos como é a natureza."

Pablo Neruda



Rodeada de memórias de uma infância que ainda corre.
Das viagens diárias.
Do riso aberto que fazia explodir e da ternura que corria das mãos e dos lábios.
Para um outro João Afonso que ainda não sabe que realejo vai ser.

aos gins de verão e a todo o resto

Uma garrafa de gin

estava a preocupar

o pescador.

A garoupa e o rodovalho

Não tinham aparecido

pró jantar

que fazer?

Telefonou ao ministro

da Pesca e do Trabalho

mas o ministro

estava a trabalhar

na cama

com a mulher.

Foi então

que a garrafa de gin

sugeriu discretamente

porque não

telefonar ao presidente?

Telefonaram.

O presidente da nação

estava em acção

na cama

com a mulher.

Nessa altura,

até que enfim,

encontraram a solução

o pescador

foi para a cama

com a garrafa de gin.


Mário-Henrique Leiria, in "Contos do Gin-Tonic"



Para fazer companhia ao som das ondas que entra pela janela.

No banco do jardim, como numa sala de espera, pergunta se alguém virá para a buscar, antes que a noite chegue.
E eu, do outro lado do tempo, abro o caderno para lhe escrever: «Um dia saberás o que disseram todas as cartas que não abriste; e perante o vazio a que a tua vida se resume, responderás que pouco importa o tempo, quando a eternidade
te cobriu com a sua noite, há muito

Depois, vou ao correio.
«Esqueceu-se de pôr a morada», diz-me o empregado.
«Não sei para quem escrevo», digo-lhe.
E meto na caixa o envelope em branco para que alguém, um dia, o descubra num fundo de posta restante. E ao ler o que lhe escrevi, talvez se sente num banco de jardim, pouco antes da noite, pensando no que é a vida em que todo o futuro se fixa nesse instante que não chegou a ser.

Nuno Júdice



Já falta tão pouco...

16.7.09

Vermelhos

 


Vermelhos.
Vivos.
Muito vivos e outros já idos.

Para lembrar sempre, antes que, de revisões propostas, haja aprovações.
Triste país este com actores de tão fraca cultura e menor memória.




Abraça-me bem e cobre o meu corpo, enfim
Nesse agasalho, são os teus braços, sim, cuida de mim
Basta-me um gesto, porém, abraça-me bem

Bem no teu colo, chega-me mais a ti, um pouco mais
Suavemente, assim, tudo por fim
São mágoas que eu consolo, bem no teu colo

Todo este céu, de pássaros e tons, muito assombrados
Traz o teu ser, tão bom, todo este som
Desce a nós, como um véu, todo este céu

Lançado à terra, sobre restingas e ilhéus, mil sombras de asas
Lembram a ausência de um Deus, num último adeus
Pois só o teu afago me espera, lançado à terra

Qualquer coisa acontece no mais alto dos céus
Qualquer coisa no fundo do meu coração
Mas não sei das trevas, nem da luz
Pois sem ti não há nem céu nem chão
E se a noite já ronda a minha cruz
Luz nas trevas, minha paixão


A poetica dos coisas esvai-se quando as horas, os minutos e os segundos não são os únicos a marcar o tempo.
É então que as almas cerram as cortinas e, apesar do anoitecer lá fora, deixam as luzes por acender.

Porque a vida é rendonda, por vezes os momentos repetem-se.

*
Hoje caiu-me uma frase no colo.
Vinha sozinha. Desacompanhada de todas a outras que me povoavam o pensamento.
Ao princípio assustei-me.
Uma frase assim sozinha não fazia muito sentido.
Uma frase assim tão grande e ali caída, realmente, não fazia nenhum sentido.
Mais atentamente olhei-a e tentei descodificá-la.
Li-a pausadamente como que a sorver cada palavra que a compunha.
Encontrei um verbo: o Querer. Logo mais à frente estava outro: agora era o Mudar. E ainda outro: o Desejar.
Pelo meio andavam uns adjectivos, mais uns substantivos e ainda uns tantos nomes.
Peguei-lhe numa ponta e tentei levantá-la do colo para a colocar perto dos olhos.
Ops!
Palavra atrás de palavra foi caindo da frase, fazendo pufff conforme iam tocando na mesa.
Mais uma vez espantada fiquei a olhar e a lamentar a minha proverbial inabilidade para lidar com frases e palavras.
Uma amálgama de palavras repousavam agora ao monte ao lado do café que me acompanhava.
E agora?
Como é que vou descodificar isto?
Como é que vou perceber porque é que esta frase se quis soltar das outras que me povoavam o pensamento?
Será que era mesmo importante para se fazer notar?
Bem, acho que não vai ser fácil descobrir.Naquela leitura apressada tinha-me limitado a ver as palavras e não a conjugá-las umas com as outras para fazerem o tal sentido que procurava agora.
A solução era montar tudo, como se de um puzzle se tratasse, procurando o sentido que a lógica do momento permitia.
Comecei pelos verbos. Pareciam-me os mais luminosos e os mais fáceis de escolher no meio de tanta palavra.
Primeiro peguei no Querer, logo a seguir apanhei o Desejar, depois foi a vez do Mudar, logo a seguir do Partilhar, depois o Sonhar, o Ter, seguiu-se o Tirar e por fim aquele me parecia mais descabido ali: o Perder.
Na outra ponta da mesa fui guardando alguns substantivos, nomes, pronomes, adjectivos e conjunções, para os poder ir tirando para juntar aos verbos conforme me fazia mais sentido.
Era um jogo de paciência que ali me esperava.
Tentativa atrás de tentativa, a ideia que tinha é que os verbos não cabiam com as palavras guardadas no outro canto.
O querer e o desejar eram os mais fortes de todos, dizia-me o pensamento.
E era ali, que entrava o pronome que mais se repetia. Eras Tu que queria e desejava mesmo.
E seria ali que o perder se encaixava?
Será que era um querer que de tanto querer já não quero mais?
Ou era o Querer e o Tu que não se conjugavam com o Eu?
Ou será que o Desejar tanto o Mudar não tornaria o gosto do Querer - do querer-te - aquele Desejar imenso, numa coisa quase irreal onde só cabia
Eu?
Ou será que é o Ter o que se quer sem nunca o Ter realmente – nunca o Ter pela alma - que ali faziam todo o sentido?
Que confusão reinava ali!
Voltei a olhar o monte das palavras e logo ali descobri uma em que não tinha reparado ainda: Futuro.
E aí foi mais fácil conjugar tudo.
Outros quereres se abriram na esperança de outros teres que ainda não se desejam, nem se sonham, porque o Futuro não se conjuga, para já, com o Conhecer, o Querer, o Sonhar e o Partilhar.
(Caldas da Rainha, 5 de Abril de 2006)



Uma cantiga de desemprego


Fumo um cigarro deitado no mês de Janeiro.
Fecho a cortina da vida, espreguiço em Fevereiro.
E procuro trabalho nesta esperança de Março.
Já me farta tanto Abril e aquilo que não faço.
Espreito por um funil a promessa de Maio,
porque esperar o prometido, nessa já não caio.
Queimo os dias de Junho no sol quente de Julho.
Esfrego as mãos de contente num sorriso de entulho.
Para teu grande desgosto, amo o teu corpo em silêncio.
e lentamente esquecido, digo-te adeus em Agosto.
Meu Setembro perdido numa esquina que eu roço.
E penso em Outubro o menos que posso.
Mas quando sinto a verdade daquilo que cansa,
morre então a saudade do tempo de andança.
E sinto força em Novembro, juro luta em Dezembro.
E sinto força em Novembro, juro luta em Dezembro.














Para que a memória não se apague: a maior manifestação de sempre realizada em Portugal.
Ainda corria o tempo das doces ilusões.




25.4.09

Sempre!

 



Contribuo
com o que posso
para
a lixeira cultural

não é muito eu sei
outros dão muito mais
eu não passo de um amador
enfim
o importante
é cada um dar o seu melhor
como dizem os irresponsáveis.
Alberto Pimenta


Como de súbito na vida tudo cansa!
e cansa-nos a vida e nos cansamos dela,
ou ela é quem se cansa de nós mesmos,
na teima de existir e desejar?

Um dia é como se uma corda se quebrara,
ou como se acabara de gastar-se,
que nos prendia a tudo e tudo a nós.
Não é que as coisas percam importância,
as pessoas se afastem, se recusem,
ou nós nos recusemos.

O que sentimos é pior que quanto
dantes sentíamos nas horas ásperas
da fúria de não ter ou de ter tido.
Porque se sente o não sentir. Um tédio
Não como o tédio antigo. Nem vazio.
O não sentir. Que cansa como nada.
Até dizê-lo cansa. É inútil. Cansa.

Jorge de Sena


A colectividade, apesar de ser o conjunto de todos os seus indivíduos, funciona exactamente como um indivíduo a mais. Assim como se no mundo houvesse toda a gente que existe e mais uma pessoa: esta pessoa seria exactamente todos num só.

A colectividade é também um indivíduo, um indivíduo como qualquer outro, mas é o indivíduo colectivo, na verdade colectivo e indivíduo. Com a vantagem sobre qualquer outro de não estar sujeito, como nós, às vacilações de um organismo mortal.
A colectividade é o indivíduo imortal. Feito da mesma massa humana que qualquer de nós, os indivíduos mortais.

Almada Negreiros, in "Textos de Intervenção"




"Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus"

Blog interdito a moralistas, polícias de Braga, políticos e lacaios do sistema
"A Origem do Mundo" Gustave Courbet, 1866
"Na primeira noite, eles aproximam-se
e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem,
pisam as flores, matam-nos o cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo o nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada."
Maiakovski (1893-1930)
"Primeiro levaram os comunistas
Mas não me importei com isso
Eu não era comunista
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os sindicalistas
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou sindicalista
Depois agarraram uns sacerdotes
Mas como não sou religioso
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde."
Bertold Brecht (1898-1956)


Quando o silêncio diz tudo as palavras quedam-se e alma retraí-se.
O melhor de dois mundos só existe enquanto permitimos.
E pronto!
Foi-se…
É estranho mas também sabe bem o despir das ilusões
Será este o verdadeiro sabor da Liberdade?

(para o Eu... na volta e do Drummond)



A poesia é incomunicável.

Fique torto no seu canto.

Não ame.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.


É a revolução?

o amor?

Não diga nada.

Tudo é possível, só eu impossível.

O mar transborda de peixes.

Há homens que andam no mar

como se andassem na rua.

Não conte.

Suponha que um anjo de fogo

varresse a face da terra
e os homens sacrificados
pedissem perdão.

Não peça.



Carlos Drummond de Andrade


Sentir. Só sentir...
Sentir lentamente, ora a solo e em duo.
Com dia marcado, ou noutro qualquer ao acaso
não importa.
Mas importa, isso sim, saber-se um ser único ente tantos.
Diferente e sempre ali.
É isso, lembra-te.

Deixemos os maniqueísmos. O cinza e o creme também existem e a beleza está lá.
E perfeitos só os Deuses, mas a esses ...



POEMA

Eu hoje tive um pesadelo e levantei a tempo, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me trás uma lembrança... do tempo em que eu era criança
E o medo era motivo de choro, desculpa para um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo
No escuro eu via um infinito sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte já não era medo, era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim

De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingénua, que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu a minutos atrás...


"Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania.
Depende de quando e como você me vê passar."
Clarice Lispector

foto Emília Duarte, in Olhares

"Estava eu sentado lá em casa, quando ouvi a minha tia dizer «uff!».
Suspeitei logo que havia coisa. Fui ver. Tinha-lhe nascido uma verruga na orelha. Não me pareceu normal.
Procurei imediatamente o meu tio, que é brigadeiro.
-Vamos falar com o ministro - disse o meu tio.
Fomos.
O ministro, em princípio, não quis acreditar. Não podia ser, aquilo não era normal. Claro que não era normal mas eu tinha visto, e foi o que lhe disse.
-Nesse caso, o melhor será fazer como se não soubéssemos de nada - propôs o ministro. - O senhor já pensou o que isto pode causar? - Continuou, ansioso. - Começam por aí a inquirir, a verruga complica-se, os anarquistas, sempre prontos para a insídia, aproveitam o momento, a greve surge, as coisas atrapalham-se, intervenção das Potências, a guerra, que sei eu? Não, não digamos a ninguém. Guardemos segredo, o Estado o compensará.
Olhei para o meu tio, brigadeiro como já tive oportunidade de fazer notar, e vi que realmente o caso parecia grave. No entanto, duvidando um pouco, inquiri ao ministro:
-A coisa é assim tão importante, Excelência?
- Mais que isso, meu amigo, mais que isso. A pátria está em tremendo perigo.
Senti que era a hora da decisão.
- Se a pátria periga, não desejo a mínima recompensa. Comigo é assim. Pela pátria, tudo. Calarei.
Calámos
Dias depois a minha tia recebia uma carta escrita pelo próprio Imperador. Agradecendo. Louvando.
A carta ainda lá está. A verruga também.
Quanto a mim, continuo sentado lá em casa.
Calado."

Mário Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tónico

Foto: Luis Gonzaga Ribeiro

Estava a jantar no PING-PONG com uma amiga realmente simpática.

Na altura do conhaque a acompanhar o café, lembrou-se de repente: «e se este fosse o último?». Pediu mais outro conhaque, mesmo antes de acabar o que estava a degustar.

À porta, quando saía, o Tião Medonho atirou-lhe quatro de 38 exactas, abaixo do diafragma, e foi-se embora.

Isto de religião é uma coisa tremendamente complicada, sempre tenho dito.

E a minha mãe confirma.

Mário-Henrique Leiria, in Contos do Gin-Tonic


Ante o frio,
faz com o coração
o contrário do que
fazes com o corpo:
despe-o.
Quanto mais

mais ele encontrará
o único agasalho possível
um outro
coração.

Mia Couto, in "Chuva Pasmada"







Pedro Abrunhosa - É Difícil

"Eu não quero ser a luz que já não sou,

Não quero ser o primeiro

Sou o tempo que acabou.

Eu não quero ser

As lágrimas que vês,

Não quero ser primeiro

Sou um barco nas marés."




Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo...
tão leve... tão sutil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...


José Gomes Ferreira


Quando se esquecem, por momentos, as esperanças nos passados que se julgavam futuros e os olhares e os tempos se espairam por lugares há muito não visitados, a alma rejuvenesce e os sentimentos tornam-se mais fortes.
Há surpresas que valem tudo e tudo que vale ouro.



Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram.
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido.
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.
Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão.

Miguel Torga




R.I.P.

Subscribe