As mais recentes demissões, constituições de arguidos e afins não permitem que fique calada, quer pelo tamanho da urticária que me provocam, quer por lembranças tempos de antanho que não desejo de forma nenhuma viver.
E porque a liberdade, seja ela a que nível for, é um dos valores fundamentais do homem, e seguindo o espírito deste canto, apetece-me mostrar este texto de Luís Fernando Veríssimo, publicado na revista “Actual” (um dos suplementos do Expresso), no passado sábado, dia 23/06/07.


- Alô?
- Quem fala?
- Quem quer saber?
- Quem é, por favor?
- Diga você quem é.
- O Dr. Márcio está?
- Quem quer saber?
- Está ou não está?
- Depende.
- Depende do que?
- De quem quer saber.
- É o…
- Espere! Qual é o assunto?
- O assunto é com o Dr. Márcio.
- Pode dizer pra mim.
- Mas quem é você?
- Primeiro me diga quem é você.
- Aqui é o…
- Não use seu nome verdadeiro!
- Por quê?
- Use um pseudónimo.
- Que história é essa? Por que pseudónimo?
- Podem estar gravando.
- Quem?
- E eu sei?
- Dr. Márcio… é o senhor?
- Não. Meu nome é… Deixa ver… Balduino.
- Você se chama Balduino?
- Claro que não. É pseudónimo. Invente um também.
- Isto é ridículo.
- Eu vou desligar.
- Está bem! Frajola.
- Frajola?!
- Jaime! Jaime!
- Muito bem, Jaime. E qual é o assunto?
- É com o Dr. Márcio.
- Pode me dizer que eu transmito pró Márcio. Que também é um pseudónimo, claro.
- Márcio não é o nome do Dr. Márcio?
- Depende do assunto.
- É sobre o pacote que ele encomendou do…
- Espere! Não fale assim tão claramente. Use linguagem figurada.
- Linguagem figurada?
- É. Em vez de pacote, diga coisa. Não, “coisa” pode ser mal interpretada. Diga “encomenda”.
- A encomenda que ele encomendou do…
- Não diga o nome!
- Por quê?!
- Não queremos incriminar ninguém.
- Mas não há crime algum!
- Isto vai depender da interpretação. Esta conversa já está pra lá de suspeita.
- Eu só queria avisar ao Dr. Márcio que as linguiças chegaram.
- As linguiças. Boa, boa. O pseudónimo de “encomenda”.
- Não, são linguiças mesmo.
- Um pacote de linguiças?
- É. Calabresas. Que o Dr. Márcio encomendou do… De alguém.
- Já entendi! Já entendi tudo. Você é que está gravando este telefonema. Esta conversa toda é para me incriminar. Ou incriminar o Márcio. Pseudónimos. Linguagem figurada… Já vi tudo! Amanhã ela sai no Jornal Nacional, e é óbvio que “pacote de linguiças calabresas” vai parecer código.
- Mas foi você que sugeriu os pseudónimos, a linguagem figurada, o…
- Arrá! Vocês não me pegam. Nego tudo. Aliás, nem sou eu falando. Provem que sou eu.
- Quer saber de uma coisa, seu Balduino? Pra mim chega. O recado está dado. As linguiças chegaram. Passe bem.
- Espere. Agora me lembro. As linguiças que eu encomendei. Calabresas.
Claro, claro. Me lembrei.

- É o senhor, Dr. Márcio?
- É. Claro, claro, sou eu. Desculpe. Sabe como é. A gente vai ficando meio paranóico… “

4 comentários:

Apache disse...

Só meio paranóico? E a outra metade.

Luis Eme disse...

Anedótico...

Só espero que não se chegue a este ponto...

Gi disse...

:))))

Mesmo sabendo que o texto peca pelo exageo, reconheço-lhe a semelhança com algumas paranóias que se vão vivendo por aí. Instinto de sobrevivência? Medo de se assumrem? Gente pouco convicta?

Enfim...

O texto como muitos que ele tem , está brilhante. Este não conhecia.

Beijinhos

Rasputin disse...

Quem julga qu é exagero...pense de novo... Num país onde o humor em privado é motivo de castigo, não ha limites para poder. Sendo alguem nascido no tempo da antiga senhora acredito que o Prof. Salazar se sentiria bem num país em que s escuta, castiga e comenda com a facilidade que o faz a nossa democracia. Talvez não admitisse tanto despesismo, mas o tipo era um ditador caramba...

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