Não te quis escrever no meu caderno das memórias. Mas naquela dia, abri-o no meio e descobri-te naquelas folhas já amarelecidas que tinha guardado para a lua cheia, para a árvore nua e para a nuvem que se tinha deixado pousar.
Tinha guardado aquelas folhas para me recolher no silêncio e daquela cadeira poder ver o horizonte com o mar lá ao fundo.
Mas ali estavas tu. Refugiado sobre ti de cigarro na mão. E o cigarro de tão lentamente fumado, em toda aquela calmaria, ia deixando um rasto de fumo a fazer lembrar uma flor.
Eu vim da página ao lado e sentei-me debaixo da árvore com uma mão a brincar com a nuvem macia e outra em cima do joelho flectido.
Chamei-te baixinho. Viraste-te e, com o espanto nos olhos, sentaste-te ao meu lado.
E ali ficámos naquela canto do tempo a gastar nomes, pronomes, verbos, adjectivos e a despejar alguns recantos das nossa almas.
Descobrimos muitas diferenças, grandes afinidade e muitas cumplicidades, que prometemos arrastar dali para o tempo real que nos foge por entre os dedos, longe das páginas em tom sépia deste meu caderno das memórias.
Ali sentados gastámos as palavras que tínhamos para dar e quebrámos todos os silêncios desta paisagem. Trocámos de mãos, de sentires, de saberes e de sabores. Num momento, virámo-nos um para o outro, e de dentro dos olhos cheios de tudo, saiu uma vontade louca de partir numa cumplicidade entretanto descoberta.
Subimos na nuvem e movidos pela brisa corremos com ela por baixo da lua cheia, por cima dos montes, ao longo dos vales e das planícies até chegarmos ao mar.
E foi aí que parámos a brisa, descemos da nuvem e corremos pela areia até à gruta lá do fundo onde, depois de gastas todas as palavras, saciamos as cumplicidades nos corpos que descansam agora lado a lado.

Na página do caderno ficou agora gravada a memória de ti.

Posted by Picasa

23 comentários:

Tentação disse...

Eis uma história bem condimentada de imaginário e encanto. Mi Gusta Mucho :)

Eva disse...

É sempre bom reviver as memórias amarelecidas pelo tempo.

Rasputin disse...

Interessante.
Quantas folhas em branco existem nestes diarios...
Quantos dos leitores não lembraram aquelas que têm nos respectivos diário.
Tantas paginas impolutas marcadas de recordações não transcritas.

Cleopatra disse...

Acho que as folhas podem estar amarelas...
As memórias ainda não...

Costumo chamar a isto que descreveu de forma tão poética e metafórica, filosofia clinica,... Depois... costumo chamar-lhe Amor!

joana disse...

extraordinária a maneira como escreve.
nao sei fazer grandes criticas, mas neste caso só há uma coisa a lizer: porque nao faz um livro?
sim, porque pessoas como tu que escrevem assim e deixam as pessoas sem palavras merecem ser um dia e talvez sempre recordadas.
mais uma vez os parabens.
confesso que a invejo da maneira como escreve...mas com o tempo lá chegarei...

bjinhos**************

Carla Ferreira disse...

Eu também chamaria AMOR... sem dúvida!

Parabéns pelo texto!

Apache disse...

Love is on the air?...
Ou será que com aquela Lua magnífica ele "vira" Lobisomem?...

Paulinha disse...

Lindo!!!!!!
Ficamos à espera do livro!
Não desistas nunca de escrever, especialmente porque te faz sentir bem.
Nós agradecemos o teu dom!

Margarida Araújo disse...

Que lindo, amiga.

Mystic's disse...

Lindoooo...

Crix disse...

A brincar: queres começar a escrever as minhas memórias descritivas? - (iam ficar bem mais interessantes)
A sério: obrigada por partilhares estas paisagens connosco...são lindas
Jinhos

mejo disse...

um bom texto com um profundo saber escrever

Apatricio disse...

BEIJINHOS TUDO DE BOM, O TRIBUNAL, QUANDO SAIS TÊM UMA VISTA ESPECTACULAR...

VAI PASSANDO POR AQUI :

http://portugal-verdades-e-consequencias.blogspot.com/

DarkMorgana disse...

Há páginas ou mesmo capítulos da nossa vida que gostamos de reler, e de sentir outra vez...
O mais difícil...é voltar a fechar o livro...

Muuuito bonito...mais uma vez!!

Carla Ferreira disse...

Há livros que nunca se fecham, apenas ficam em suspenso!
Na história da nossa vida, nunca sabemos quando temos que (re)voltar a uma página vivida, para a poder encerrar definitivamente ou lhe dar continuidade!

Um bom fim de semana!

Fernando Pinho disse...

Confesso que gostei mais do texto «Encontro - Divagações a propósito de uma foto», mas de qualquer forma este trabalho é também um bom exemplo de como se deve escrever neste género literário.

Tens, realmente, talento e deves – na minha óptica – tentar algo mais, o tal livro que já falei num outro comentário.

Com este texto lanças de novo no ar a amplitude do amor, da cumplicidade entre dois seres que gostam muito um do outro.

É mais uma memória, uma paixão, um contacto. Mas pode ser também um testemunho ou, pura e simplesmente, uma ficção, um sonho ou mesmo um desafio.

Nesse teu caderno de memórias não deixes que o presente te dificulte o teu dia-a-dia só pelo facto de não poderes voltar atrás no tempo.

Força amiga virtual.
Continua a surpreender-nos.

X disse...

Era tão bom que não fosse só uma memória.

Cleopatra disse...

Olá!!!
tenho um texto para o Fernando.....Pinho.
Olá Fernando...

Anda muito arredio!..

Não se brinca com essa gente!... (risos!)

Fernando disse...

Como vês, nem a gripe me impede de te vir fazer uma visita. E valeu a pena. Conseguiste pôr o silêncio em palavras. E esse é o segredo da poesia. Um beijo (com cuidado, por causa da gripe)

Fernando Pinho disse...

Cara Cleoprata,
Mas, afinal, que texto tem para mim??

Cleopatra disse...

Fernando tenho um texto que lhe fala de Juízes e Juízas...
Quer???

Era uma vez uma menina que queria ser Juiz...

Gostava do que era justo e honesto, vertical e transparente...
Queria decidir,...fazer Justiça..

Não é assim o texto claro...

Mas fala do Perfil de um Juiz..

Vou escrevê-lo e dedicar-lho.
Poderá lê-lo quem quiser!!

Fernando Pinho disse...

Fico à espera. E, se quiseres, também coloco o artigo no meu blogue (http://www.riomedia.blogspot.com)

Cleopatra disse...

Tem um BLog???!
O SR tem um BLog e não dizia nada??
Pois muito bem... Vou espreitar...
Sempre quero ver!

E se já tinha Blog porque não dizia nada???

Este Fernando é um brincalhão.
Aposto que o texto não serve para o teu blog oh Fernando!

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